A presença das fezes de cachorros é o fator principal para a classificação negativa registrada em Copacabana. No Leblon, são principalmente os restos de comida e lixo que explicam a má qualidade das areias.
Nesse período, o Piscinão de Ramos, ao contrário, teve a higiene de suas areias aprovada: recebeu classificação “ótima”, assim como três trechos aferidos da Praia da Barra. A classificação positiva indica a presença de até 10 mil coliformes fecais e até 40 unidades de E. coli por 100 gramas de areia. Também receberam avaliação máxima as praias de Ipanema (trecho da Rua Paul Redfern), Vermelha (Urca), Guanabara e Bica (Ilha do Governador) e a orla do Recreio a Guaratiba.
Gerente de monitoramento de Água e Ambientes Costeiros da secretaria, Vera Oliveira explica que não é comum esses trechos de Copacabana e Leblon registrarem índices preocupantes de contaminação. No penúltimo boletim, a região da Rua Barão de Ipanema teve índice considerado bom, mas a área da Bartolomeu Mitre apontou índice apenas regular. Já as areias do Piscinão de Ramos frequentemente aparecem como impróprias. A presença de bactérias que podem causar diarreias e irritação de pele — além de lesões e micoses — também já preocupou em Ipanema, na medição feita no fim de agosto passado.
A prefeitura analisa a qualidade das areias de 36 pontos. Desde fevereiro de 2010, as informações são divulgadas no Diário Oficial. Em cada ponto, há a aferição de cinco amostras diferentes. Critério que evita que haja fatores pontuais que possam mascarar o resultado final. Vera Oliveira diz que os trechos considerados impróprios sofreram com maus hábitos do frequentadores e critica a falta de zelo do carioca com o “quintal de casa”.
— A praia é a continuação da casa do carioca, que tem que tomar mais cuidado com o que é seu. A legislação municipal é transparente ao impedir a presença de cães nas praias. A única exceção é a Praia do Diabo, mas os cães só podem circular por lá no calçadão, e os donos devem levar saquinhos para coletar as fezes. Estes índices altos em trechos de Copacabana e Leblon demonstram que houve um uso excessivo e maior sujeita e fezes. Algum impacto existiu — afirma Vera.
Mestre em biologia celular pela UFRJ, Igor Cruz alerta que microrganismos de origem fecal, como a Escherichia coli e os enterococcus, podem gerar uma série extensa de patologias. Por isso, neste verão é prudente ficar atento não apenas com o aspecto do mar:
— As patologias causadas por estas bactérias não chegam a ser letais. Mas quem gosta de pegar uma diarreia, disenteria, irritação de pele? A Escherichia coli é usada como um indicador de presença de outros microrganismos nocivos à saúde. Onde há presença de E. coli há registro de outras bactérias. A ciência já detectou que uma cepa de enterococcus, microrganismo de origem fecal, é resistente a antibióticos. Calor, umidade boa e restos de comida, características das praias do Rio, proporcionam um ambiente extremamente favorável à proliferação destas bactérias.
Salmonela, outra vilã das praias
O especialista ressalta a importância de se evitar que os cães defequem nas areia. Ele observa que “não chega a ser o caso de uma calamidade pública porque normalmente (estas doenças associadas à contaminação) não geram óbito”, mas classifica de preocupante o recente patamar de 3,8 mil unidades de Escherichia coli em 100 gramas das areias da Princesinha do Mar. O limite aceitável de muitos países varia de 400 a 600 unidades. As praias cariocas, diz ele, também podem abrigar uma outra vilã do bem-estar: a salmonela.
— Há estudos que indicam a presença de salmonela, bactéria muito comum em alimentos derivados de ovos, em praias de Fortaleza. No Rio, esta contaminação provavelmente também existe — diz Igor Cruz. — A praia se tornou um recanto de perigo. O perigo existe há pelo menos dez anos, mas faltam informações ao público.
Na avaliação do biomédico, o poder público poderia indicar o grau de contaminação das areias, da mesma forma com que avisa sobre os perigos do mar.
— A prefeitura poderia sinalizar com uma bandeirinha vermelha quando houver presença de água e areia contaminadas. Toda a contaminação vem do hábito do homem. Os trechos mais contaminados são registrados nos locais de maior uso. Há uma relação direta. O diálogo do poder público com a população deve aumentar.
A dermatologista Bruna Duque Estrada alerta que fungos causadores de micoses e verminoses de pele podem ser trazidos por animais nas praias:
— É preciso ficar atento aos boletins, não levar cão à praia e evitar frequentar os locais com contaminação, já que é impossível não ter contato com a areia.
Horário de verão: área de lazer com uma hora a mais
Ao mesmo tempo em que índices alarmantes de contaminação das areias por bactérias são divulgados, a prefeitura anuncia que o funcionamento das áreas de lazer na orla da Zona Sul será prolongado até as 19h a partir do próximo domingo. A mudança vale para o Aterro do Flamengo, para a Avenida Atlântica (na pista junto à orla, no trecho compreendido entre a Rua Francisco Otaviano e a Avenida Prado Júnior), para a Avenida Delfim Moreira (pista junto à orla) e para a Avenida Vieira Souto (também na pista junto à orla).
Além disso, a pista reversível da Avenida Atlântica, junto às edificações, no trecho entre a Rua Joaquim Nabuco e a Avenida Princesa Isabel, também será estendida até as 19h (incluindo a Rua Joaquim Nabuco, no trecho entre a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a Avenida Atlântica, e o fechamento da Avenida Princesa Isabel, na pista sentido orla). A CET-Rio informa que a sinalização referente ao horário de funcionamento das áreas de lazer já está sendo alterada conforme a nova programação: das 7h às 19h.
Emanuel Alencar – O Globo