A corte de Getúlio é acusada

Getúlio Vergas e Tancredo Neves

Nunca houve provas de que Getúlio Vargas fosse o mandante do crime ou soubesse dele. Acusações recaíram sobre os suspeitos Benjamin Vargas, os deputados Lutero Vargas, Danton Coelho e Euvaldo Lodi e sobre o general Mendes de Morais, todos como possíveis instigadores. Gregório Fortunato foi quem acabou condenado como mandante do crime.

Ao se reconstituir o crime da Toneleros, que ocorreu em 5 de agosto de 1954, podem-se levantar duas versões, a partir de jornais e revistas da época e da confrontação dos depoimentos, principalmente de Alcino (único responsável pela morte do major Vaz) e do jornalista Carlos Lacerda, ferido por um tiro no pé esquerdo.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato

Gregório Fortunato tanto poderia estar utilizando os seus subordinados para levantar informações como poderia tê-los pago para matar Lacerda. Disse Benjamin Vargas: “Pela sua formação, pelo seu passado, pelas vezes que tem brigado, levando a melhor ou pior, não era homem de tocaia. Não era inimigo de Carlos Lacerda, não o conhecia, nunca viu, nunca leu, nunca ouviu.” Valente, em depoimento, afirmou que Gregório, após o crime, dissera o seguinte a respeito de Climério: “Meu compadre está metido nessa trapalhada e esta bomba ainda vai estourar em cima de mim.” Gregório acabou confessando a Benjamin Vargas (seu padrinho de casamento) que dera fuga ao compadre Climério (Gregório era padrinho de batismo de Adão, filho de Climério).

Gregório Fortunato nasceu em São Borja, como o presidente, e durante sua infância conhecera a família Vargas no final do século 19. Gregório teve contato com Vargas em 1923, durante a Revolução no Rio Grande do Sul e depois, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista. Em 1938, Gregório se mudou para a capital federal, após o atentado integralista, e organizou a Guarda Pessoal, assumindo a sua chefia em 1942. Quando Gregório Fortunato foi interpelado pelo presidente, após o atentado sofrido por Lacerda, respondeu-lhe: “Tenho a Guarda nas mãos, não acredito numa traição dessas”; isso mostrava a lealdade de muitos anos para com o presidente e desconhecimento, até aquele momento, do que havia acontecido. Em depoimento ao IPM, Gregório disse: “Tenho matado peleando, trocando balaços, não sou homem para ser assalariado para tirar a vida de quem quer que seja”.

Climério acompanhava Alcino nas diligências e Soares dirigia o carro. Naquela noite de 4 para 5 de agosto de 1954, Soares estava em São Paulo, Climério e Alcino pegaram várias conduções para chegar ao Colégio São José. Antes de partirem, Climério ligara para o motorista Nelson, solicitando uma corrida de táxi para ele e Alcino. Ambos foram verificar se Lacerda já havia chegado à Toneleros, antes de eles irem embora para a casa de Climério. Nelson conhecia Climério, mas não conhecia Alcino. Por se tratar de uma diligência, Nelson ficou esperando o retorno dos dois, como também poderia estar parado esperando a volta dos assassinos. A arma fornecida por Soares para proteção de Alcino e eventual uso durante seu trabalho também pode ter sido fornecida para um assassinato.

Nem plano de fuga havia

Entretanto, por causa do passado de sicários da Guarda Pessoal, todos acabaram condenados como participantes do atentado. Atentado este que, se bem analisado, mostra que não havia plano de fuga, nem dinheiro previamente entregue aos acusados. Outro fator a se considerar, é o não uso de um carro qualquer com chapa fria, mas um táxi de um ponto que ficava ao lado do Palácio do Catete. A falta de reconstituição do crime é o fato que mais chama a atenção até hoje, pois possibilitaria esclarecer vários pontos sobre o crime em si.

Alcino não tinha porte físico, nem experiência de pistoleiro e nunca usara uma arma calibre 45 milímetros, mas ao atingir o pé de Lacerda, atingiu fundo o imaginário da época, a ameaça que pairava sobre Lacerda e finalmente se concretizava. Além disso, a morte do major Vaz deu conotação político-militar à crise de agosto de 1954. O motorista Nelson, ao permanecer no carro permitindo a fuga de Alcino do local do crime, passou a cúmplice. Soares, por fornecer a arma e receber o dinheiro de Valente, passou a co-autor e também por encobrir a fuga de Climério. Este, ao entregar o dinheiro a Alcino, e por ter estado com ele no local do crime, passou a ser culpado também. Gregório, ao financiar e acobertar a fuga de todos, passou a mandante de tudo.

Churrasco na residência do Brigadeiro Nero Moura. Observado por Cristiano Machado, Café Filho, Nereu Ramos e pelo Ministro da Guerra, General Cyro do Espírito Santo Cardoso. Getúlio Vargas corta o churrasco. Atrás de Getúlio, em pé, Gregório Fortunato e outros elementos da Guarda Pessoal. Reprodução de foto do livro Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

A Guarda Pessoal e a polícia estavam em julgamento por todo o passado de crimes impunes e acobertados que os inquéritos não apuravam e que aconteceram nos períodos de 1938-1945 e 1951-1954. Gregório Fortunato estava bem de vida, e não teria motivos para se arriscar, pois dali a um ano haveria eleições presidenciais e ele sairia do governo. Seu objetivo parecia ser continuar obtendo informações sobre de várias pessoas, entre as quais Lacerda. Mas Alcino, ao disparar o Smith & Wesson, calibre 45 milímetros, alterou os acontecimentos, que se precipitaram até o suicídio do presidente dezenove dias depois. Não se julgam as intenções das pessoas, mas os atos praticados.

Gregório Fortunato

Na prisão, Gregório Fortunato estava escrevendo um diário sobre os bastidores do governo Vargas, com base na memória que tinha dos seus arquivos pessoais. Gregório foi esfaqueado e morreu em 23 de novembro de 1962, quando Carlos Lacerda era governador da Guanabara. Após o crime, o diário desapareceu e nunca foi encontrado.

Em 25 de março de 1975, faltando poucos dias para ser libertado, Climério Euribes de Almeida morreu no Hospital Souza Aguiar em decorrência de complicações de vários anos por ter sido esfaqueado na prisão.

Em 9 de abril de 1975, Alcino João do Nascimento foi libertado e passou a viver na Baixada Fluminense e manteve a sua versão de que não estava na rua Toneleros para matar Lacerda. No primeiro julgamento, em 1956, Alcino afirmou em depoimento que não teve intenção de matar ninguém. Segundo Hugo Baldessarini, advogado de acusação, foi “um depoimento que ninguém entendeu”. No julgamento de Climério, este disse estar “vigiando” Carlos Lacerda, isto é, “fazendo um serviço de informação” e que tanto ele como o motorista Nelson foram vítimas da função que cumpriam e seriam, portanto, inocentes. Houve seis julgamentos, um para cada réu, e a atuação da defesa, na tentativa de reduzir as penas dos acusados, foi extremamente política (pró Vargas e contra Lacerda e os militares) em alguns casos.

O advogado de defesa, Carlos de Araújo Lima, convenceu Gregório Fortunato a assumir a autoria do atentado, tentando uma redução de pena baseado no “relevante valor social”: Gregório teria mandado matar Carlos Lacerda para salvar o país de uma guerra civil e por gratidão a Getúlio Vargas (a tese da defesa poderia diminuir a pena de 1/6 a 1/3), havia uma outra tese de “excesso de mandato” que significaria “dar um jeito” em Lacerda e não matá-lo. No depoimento de Gregório Fortunato, este tentou envolver possíveis instigadores para diminuir a própria pena e recair a culpa sobre os possíveis instigadores.

O advogado de defesa, Humberto Salles, defendeu Alcino baseado na tese de “coação irresistível e crime continuado”, o que significava uma acusação contra Climério, responsável pela coação. Essas alegações diminuiriam bastante a pena de Alcino. Os advogados de defesa não pediram reconstituição do crime, o que poderia ajudar os réus em suas defesas, e partiram para uma defesa política num tenso clima político na época do primeiro julgamento em 1956. O segundo julgamento confirmou as penas de Climério, Alcino e Soares em 1968.

Fonte: Observatório da Imprensa

Por Luiz Roberto Guimarães da Costa Júnior

Mestrando em Ciência Política (IFCH/Unicamp)