Bailes funk perdem espaço em favelas do Rio após ocupação policial

RIO DE JANEIRO, 29 Mar 2012 (AFP) -É quase meia-noite de domingo na Rocinha, a maior favela do Rio, onde os bailes funk com sua apologia ao narcotráfico causavam furor até a ocupação policial em novembro passado. Mas agora só resta um baile, sem armas nem louvor ao crime, e alguns jovens se queixam.

Um adolescente de olhos inchados pelo álcool que só quer se identificar como Igor lembra com nostalgia dos bailes de antes, que tocavam os polêmicos “proibidões”: canções com referência a armas, drogas e brigas entre facções rivais do tráfico.

“O melhor era o da rua 1” da Rocinha, fechado depois que a polícia retomou a favela em novembro, após 30 anos de controle dos narcotraficantes.

Dos cerca de cinco bailes funk na Rocinha, ficou apenas um, o Emoções, existente há mais de 20 anos e que não toca ”proibidões”, apesar do grande número de funks com temática sexual.

De salto alto e microvestido, Joseane Vieira, 18 anos, aguarda a principal atração da noite: MC Carol, conhecida por canções como “Minha Vó Tá Maluca”, que fala da indignação de uma neta com sua avó, que subitamente começou a andar de moto e fumar maconha.

Joseane, que preferia os bailes “proibidos”, declara que a violência não acabou na favela após a ocupação policial. “As brigas e os assaltos aumentaram muito”, afirma.

Nos últimos dias, quatro pessoas supostamente ligadas ao tráfico de drogas foram assassinadas na Rocinha, entre elas um líder comunitário, e a polícia afirma que os traficantes tentam retomar o território perdido.

“O funk não tem que educar ninguém” Desde que as autoridades começaram em 2008 a retomar o controle das favelas da zona sul, a mais rica e turística do Rio, tendo em vista a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, foram instaladas cerca de 20 Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas comunidades “pacificadas”.

O comandante de cada UPP tem o poder de autorizar ou não os bailes funk, algo criticado pelos defensores do movimento.

“Há um estado de exceção nas favelas cariocas”, onde muitos bailes foram proibidos, se queixa o MC Leonardo, autor do famoso “Rap das Armas” que faz parte da trilha sonora do filme “Tropa de Elite” e presidente da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk).

“Não interessa se (o funk) é bonito ou feio, as pessoas têm o direito de cantar. O funk não tem que educar ninguém”, afirma.

“O funk, uma expressão musical legítima da cultura local, terá mais espaço” nas favelas quando houver mais políticas sociais em andamento, e não só policiais, afirma José Augusto Rodrigues, um dos diretores do Laboratório da Violência da Universidade Estadual de Rio de Janeiro (Uerj).

O “pancadão” carioca não tem nada a ver com o ritmo criado nos anos 1960, que tem James Brown como um de seus principais ícones. É inspirado no Miami Bass, surgido nos Estados Unidos nos anos 1980, que mistura hip hop com batidas eletrônicas rápidas e repetitivas.

A partir dos anos 1990, os bailes funk começaram a ganhar popularidade, inclusive entre as classes média e alta, com suas canções polêmicas que retratavam a realidade das cerca de mil favelas do Rio.

A violência entre grupos rivais de traficantes era frequente, e as canções refletiam essa realidade.

O assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, por traficantes da favela Vila Cruzeiro quando fazia uma reportagem sobre drogas e sexo explícito nos bailes com uma câmera oculta, aumentou a rejeição da opinião pública a esse tipo de música.

E a violência continua. Um tiroteio em um baile funk deixou dois feridos na semana passada na favela do Salgueiro, comunidade da zona norte da cidade ocupada pela polícia.

“Clamor” da favela para autorizar o baile A favela dos Tabajaras, em Copacabana, “pacificada” pela polícia em janeiro de 2010 e com cerca de 5.000 habitantes, é a única do Rio a ter um baile funk autorizado pela UPP local.

“Houve um clamor da comunidade para que autorizássemos o baile. Autorizamos, mas não podem tocar ”proibidões””, explica à AFP seu comandante, Joacir Virgilio.

“Teoricamente eles teriam que ter monitoramento por câmeras, detectores de metais, mas a gente não cobrou porque seria economicamente inviável para os organizadores”, diz.

Pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que o funk movimentava 10 milhões de reais por mês no Rio de Janeiro em 2009, empregando mais de 10 mil pessoas.

A “pacificação” das favelas “possivelmente não teve um efeito importante no faturamento do mercado funk” porque “a maior parte dos ganhos financeiros vêm de boates e clubes do restante da cidade” e não dessas comunidades, explica à AFP Jimmy Medeiros, um dos autores do relatório.

Fonte: Portal Terra

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