As ‘coquettes’ de Copacabana

No Rio do século XIX, elegância era seguir a moda francesa,  por mais calorenta e desconfortável que fosse

Por Rose Esquenazi

Lastex, náilon, helanca, lycra, jérsei, suplex. Será que as mulheres do calçadão de Ipanema dão o devido valor aos trajes de banho e às roupas esportivas que tanto realçam as curvas do corpo? Mal sabem as “gatinhas” de hoje o quanto suas bisavós sofreram no início do século XIX, usando malhas de lã em plena Praia de Copacabana.

A primeira moda que claramente se impôs no Brasil foi a francesa, a partir da chegada da família real portuguesa, em 1808. Os nobres já conheciam as tendências européias e sabiam que, quando o assunto era requinte no vestuário, os franceses estavam sempre um passo à frente. Assim, a nova classe emergente brasileira também deveria “entrar na linha” – o que já então significava comportar-se com civilidade. E a moda era um indicativo dessa postura.

A Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, foi a primeira a concentrar lojas francesas. As que não eram legítimas afrancesavam seus nomes: Madame Dupeyrat (coletes), Madame Estoueigt (alta-costura), Madame Coulon (camisaria), Madame Douvizi (chapéus femininos) e Madame Rozenvald (florista). Ao longo do século XIX, muitos outros profissionais da moda se estabeleceram no “beco de luxo”, como era chamada a rua, o endereço mais chique da cidade, espremida entre o Largo de São Francisco e a Rua do Ourives. Ficavam ainda na Rua do Ouvidor a famosa Notre Dame de Paris, o maior magazine da cidade, a Sapataria do Cadete e a Casa Doll, que vendia camisas masculinas.

Os termos e a definição das peças do vestuário também seguiam o vocabulário francês. Incluíam de négligé-chambre e peignoir (trajes femininos para serem usados em casa) a gilet de soirée (o sobretudo dos homens). Mesmo no alto verão sobre o asfalto da Avenida Central, atual Rio Branco, os cavalheiros não abriam mão do veston (tipo de jaqueta) ou do redingote (casaco cruzado com três botões). Sem falar nas polainas, inspiradas nos sapatos do século XIV.

A palavra “maiô” só chegaria mais tarde, nos anos 1930. Existem duas versões para a sua origem. O termo pode ter vindo de maillol, uma tira de tecido que envolvia as crianças, ou pode ter se inspirado no Senhor Maillot, que no início do século XIX confeccionava malhas inteiriças em lã e seda para facilitar os movimentos dos bailarinos.

A francofilia carioca chegava a tal ponto que a primeira coluna de moda do Jornal do Brasil, publicada em 1896, não foi escrita em português! A colaboradora Marguerite Saint Gene fazia jus ao nome e redigia na língua de Napoleão. Não importava que a temperatura na Rua do Ouvidor fosse oposta à das avenidas européias – as cariocas refinadas não podiam deixar de ler os conselhos da “Causerie parisienne” (“Bate-papo parisiense”). Somente dois anos após sua estréia, a coluna passou a ser escrita em português, ainda que as dicas sobre “o que usar” continuassem importadas.

“Vestem saias compridas, amplas, cheias de subsaias, sungadas a mão. Mostram cinturinhas de marimbondo, os traseiros em tufo, ressaltados por coletes de barbatanas de ferro, que descem quase um palmo abaixo do umbigo. Todas de cabelos longos, enrodilhados no alto da cabeça e sobre os quais se equilibra um chapéu que, para não fugir com o vento, fica preso a um grampo de metal em forma de gládio curto, com um cabozinho enfeitado de madrepérola ou pedras de fantasia. Usam, como fazendas, o surah, o faille, o chamalote, o tafetá e o merino; calçam botinas de cano alto, de abotoar ou presas a cordão, o infalível leque de seda ou gaze na mão, sempre muito bem enluvada”. Era assim que se apresentavam as moças que transitavam pelo Rio, particularmente no Largo da Carioca e na Rua Gonçalves Dias, na minuciosa descrição do jornalista e memorialista Luiz Edmundo (1878-1961).

Mas certas estratégias de embelezamento, hoje comuns, eram evitadas na época. O mesmo cronista parecia assombrado com as donzelas que não usavam pintura nos olhos, nos lábios ou no rosto, receosas de comprometer sua imagem pública. “As mulheres cariocas são figuras de marfim ou cera, visões pálidas evadidas de um cemitério. Quando passam em bandos lembram uma procissão de cadáveres. Diz-se pelas igrejas que é pecado pintar o rosto, que Nossa Senhora não se pintava”.

Essa aparência fantasmagórica era agravada pelo fato de as mulheres brasileiras serem branquíssimas. Evitavam pegar sol para não parecerem pobres trabalhadoras braçais. Quando iam à praia, chegavam nas primeiras horas da manhã e não permaneciam por muito tempo. E ainda usavam o crème brise éxotique – vendido na Éxotique de Paris, mas também encontrado no Centro do Rio. O emplastro prometia manter a pele alva e aveludada.

Em 1886, em uma das quatro vezes que veio ao Brasil, a famosa atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) chocou as cariocas com um estranho hábito: deu um mergulho depois das sete da manhã. Será que os médicos não haviam alertado a diva do teatro mundial que fazia mal se banhar naquele horário e depois ficar sentada na areia, olhando o horizonte, pensativa?

Demorou um pouco, mas a ousadia de Bernhardt acabou sendo absorvida pela sociedade. Em 1917, o decreto 1.143 do prefeito Amaro Cavalcanti (1849-1922) alterou o horário permitido de exposição ao sol. A partir daquela data, ficaram reservados dois períodos na orla de Copacabana: das 5h às 8h e das 17h às 19h, com uma hora adicional nos domingos e feriados. Com oito artigos, o decreto apontava também a necessidade de “apresentar-se com vestuário apropriado na praia, guardando a necessária decência e compostura”. Além disso, nada de “ruídos e vozerias” na areia e no mar. Punição para os transgressores: multa de 20 mil-réis ou cinco dias de prisão.

Charges e desenhos de moda publicados nos jornais daquele início do século XX parecem ainda mais divertidos hoje, graças às legendas que identificam as tendências da moda da época. Como os enormes chapéus, que “faziam vítimas” no teatro. “Que há agora en scena?”, pergunta um homem tentando enxergar o que acontecia no palco. O amigo, que também não conseguia ver o que se passava, responde: “Um duetto: o tenor deve estar cantando do lado das plumas e a primadonna, do lado das fitas”.

Logo abaixo dos chapéus, outro valioso recurso feminino: os penteados. A nova tendência era ser original nesse quesito. Cada mulher inventava sua composição, o que rendia estruturas estranhíssimas, em forma de avenida, palácio, cabana, cumeeira e pagode – não o musical, claro, mas o templo asiático.

Por outro lado, a virada do século trouxe novas formas de abordar os modismos femininos. Começava a surgir certa preocupação com o conforto. As saias ficaram mais amplas, flutuantes, e não mais entravées (justas). Um desenhista de uma das grandes casas de Paris apresentou seus últimos modelos, considerados ousados demais: mulheres vestidas como bailarinas. “Estarão dispostas a submeterem-se a semelhante ridículo?”, perguntava-se.

Desde 1881, o grupo londrino Rational Dress Society (algo como Sociedade das Vestimentas Racionais) vinha defendendo a abolição dos verdadeiros instrumentos de tortura que dominavam a moda daqueles tempos. A começar pelo espartilho, que apertava os seios e a cintura a ponto de provocar mal-estar e até abortos. Também eram condenáveis os saltos altos e o excesso de peso das roupas de baixo, que não deveriam passar de três quilos e meio. Roupas práticas, como as bloomers (calças usadas pelas mulheres turcas), eram ideais para quem quisesse andar de bicicleta com mais conforto e menos risco: antes disso, os vestidos compridos causavam sérios acidentes ciclísticos na orla ainda não asfaltada do Rio.

Em nome da liberdade pregada por aquelas pioneiras, as gerações do século XXI podem respirar. Expandem seus movimentos de maneira harmônica e confortável. E se, uma vez ou outra, as mulheres ainda optam por um modelito de sutiã com ferrinhos ou por um espartilho de couro, sabem que não se trata mais de objetos de tortura, mas de estratégias para valorizar a sensualidade feminina. Esta nunca sai de moda.

Rose Esquenazi é jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da PUC-Rio.


Saiba Mais – Bibliografia:

CALLAN, Georgina O’Hara. Enciclopédia da moda: de 1840 à década de 90 (Companhia das Letras, 2007).

RAINHO, Maria do Carmo. A cidade e a moda, novas pretensões, novas distinções: Rio de Janeiro, século XIX (UnB, 2002).

SABINO, Marco. Dicionário da Moda (Campus/Elsevier, 2006).

 

Anúncios