A família real belga


Rei Alberto e raínha Elizabeth

Bom mesmo é banho de mar

O rei da Bélgica deliciou-se nas águas de Copacabana, para surpresa de uma cidade ansiosa por se mostrar “civilizada”.

Paulo Donadio

Quem pode prever os caprichos de um rei? Quando o monarca belga veio ao Brasil, em 1920, o Rio de Janeiro se enfeitou. As ruas por onde passaria a comitiva foram embelezadas. Os prédios que visitaria ganharam manutenção. Os pontos turísticos foram preparados para maravilhar o ilustre convidado. O povo, quando pôde participar, aderiu à festa. Mas, para surpresa de todos, o rei se encantou por um programa para o qual a maior parte da cidade ainda não havia despertado: os banhos de mar em Copacabana.

A vinda de Alberto I (1875-1934) e sua esposa, a rainha Elizabeth (1876-1965), tinha um significado especial para o Brasil. Seria uma oportunidade sem igual para divulgar o país na Europa: um perfeito representante da civilização poderia testemunhar o progresso nacional e justificar a inclusão do Brasil entre as grandes nações do mundo.

Na Europa, Alberto era conhecido como o Rei-Herói, ou Rei-Soldado, fama conquistada durante a Primeira Guerra Mundial. Quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha, em 1914, o monarca se colocou à frente das tropas e, mesmo diante de um inimigo mais forte, participou da ofensiva que levou à vitória dos aliados. Terminada a guerra, a Conferência de Versalhes permitiu uma aproximação entre Epitácio Pessoa (1865-1942), chefe da delegação brasileira e recém-eleito presidente da República, e o líder belga. No evento, o rei Alberto foi convidado a conhecer o Brasil.

Não passou despercebida a alguns contemporâneos a contradição de uma jovem República precisar recorrer a uma monarquia para atestar seu êxito. Lima Barreto (1881-1922) alfinetou a “nossa república da igualdade, liberdade e paternidade”, denunciando a vocação aristocrática dos republicanos que se prontificavam a mimar o rei. Por sua vez, Humberto de Campos (1886-1934) lembrava que, na imaginação popular, antes do rei havia o herói: o que se queria festejar no visitante não era “o seu cetro, o seu trono, a sua coroa, mas um homem bravo, leal, generoso, inteligente”.

Grand Prix Derby Club Gávea em 26/9/1920

Aceito o convite, o Brasil tratou de se preparar para a visita. O Itamaraty organizou a festa de modo que os convidados estivessem cercados do conforto que exigia sua condição real. O prefeito da capital, engenheiro Carlos Sampaio (1861-1930), correu para cuidar da aparência da cidade, retocando os lugares por onde passaria o cortejo, como a Praça Mauá, a Avenida Rio Branco, as ruas da Zona Sul e as estradas do Alto da Tijuca. Faria-se de tudo para retirar da paisagem admirada pelos convidados o Rio de Janeiro das favelas, dos mendigos, das prostitutas e das crianças descalças.

Desde o começo do ano a imprensa alimentava a expectativa pela visita real. Nas vésperas do acontecimento, a ansiedade dos cariocas aumentou. Apareceram biografias do rei. O filme “O Martírio da Bélgica” entrou em cartaz no Cinema Central. Um selo comemorativo, de 100 réis, foi emitido. A Casa Colombo aproveitou-se para lançar no mercado o sapato “Rei Alberto”. Efígies, medalhas e bandeirinhas da Bélgica eram vendidas em quantidade. Nos prédios da Avenida Rio Branco, alugavam-se janelas e sacadas para os espectadores assistirem ao cortejo real.

A chegada, numa tarde de domingo, 19 de setembro, foi apoteótica: o povo correu às ruas para receber os soberanos belgas. Enquanto Alberto e Elizabeth percorriam o trajeto que ia do cais do porto ao Palácio Guanabara, a multidão, alinhada por um cordão de isolamento, saudava entusiasmada a passagem do casal real.

Começava então uma intensa programação especial para o rei. As principais autoridades do país preencheram o início da agenda. Nos primeiros dias, houve jantar restrito aos casais real e presidencial, no Palácio do Catete, visita ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso, parada militar na Quinta da Boa Vista e exibições da Escola Militar e da Brigada Policial. Em seguida, era preciso mostrar ao monarca a riqueza de nossas artes e ciências: Instituto Histórico, Escola de Belas Artes, Instituto Oswaldo Cruz, Jardim Botânico, associações literárias e científicas reunidas no Clube dos Diários, Museu Nacional. No Teatro Municipal, os convidados assistiram a uma apresentação de peças de compositores brasileiros, como Francisco Braga, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno e Villa-Lobos. No roteiro coube também um circuito esportivo, que contou com uma parada, desfile e match de football no stadium do Fluminense, além de uma tarde no Derby Club. Depois de uma passagem por Minas e São Paulo, a visita terminava com uma “Festa Infantil” na Quinta da Boa Vista e uma “Festa Veneziana” em Botafogo.

Além dos sinais do “progresso” tropical, os representantes da civilização européia deviam conhecer as belezas naturais do país. O Pão de Açúcar deslumbrou o rei, que insistiu em subir por uma segunda vez. O morro do Corcovado e as estradas do Alto da Tijuca, do Silvestre, do Andaraí e da Vista Chinesa foram outros pontos visitados. Houve ainda passeios a Teresópolis, Petrópolis e pela Baía de Guanabara.

 

Rei Alberto e a Rainha Elizabeth no Leopoldo Couraçado-SP em 16/10/1920

Como se pode imaginar, fora dessa agenda oficial o rei quase não teve tempo livre. No dia seguinte à chegada, Alberto tentou andar a pé pelas ruas do centro da cidade, mas foi impedido pela multidão que rapidamente se formou. O cerco popular não o fez desistir de aproveitar bem suas manhãs. Nas 14 alvoradas que passou no Rio, o monarca saltava da cama diretamente para a praia de Copacabana. Todo dia era dia de banho de mar.

Chegava pouco antes das 7horas, trocava de roupa num palacete da Avenida Atlântica e seguia de carro para a enseada do Posto 6. A notícia se espalhou no primeiro dia e logo atraiu milhares de pessoas, que passaram a assistir, da avenida e das areias, aos banhos do rei. Até dentro do mar, guardando uma distância respeitosa, dezenas de banhistas seguiam os exercícios de natação de sua majestade. A multidão aplaudia o Rei-Herói.

Nem banhos de mar nem Copacabana eram novidade no Rio de Janeiro daquele tempo. Copacabana havia muito já não era lugar de difícil acesso. A abertura de túneis, em 1892 e 1904, desencadeou a ocupação do arrabalde. Na época da visita do rei Alberto, já era considerada um bairro, onde predominavam boas casas e palacetes. Antes mesmo do aparecimento do Copacabana Palace, em 1923, a elite carioca havia tomado conta do lugar.

O hábito carioca de banhar-se no mar datava pelo menos do começo do século XIX, quando D. João VI (1767-1826) mandou construir uma instalação balneária na praia do Caju para se curar de feridas provocadas por carrapatos. Em 1878, o médico Figueiredo de Magalhães (1838-1898) abriu o primeiro estabelecimento de banhos em praias oceânicas do Rio, a Casa de Convalescença de Copacabana. Os moradores do bairro se organizariam para prover a praia de serviços de socorro a banhistas: em 1o de junho de 1917 foi inaugurado o serviço de salvamento da Prefeitura, com seis postos de sauvetage. Ainda assim, a praia da moda, em 1920, era a do Flamengo.

Os destinos de veraneio mais procurados, entretanto, eram as cidades serranas. Havia também a concorrência de estâncias hidrominerais, como Caxambu, Poços de Caldas e São Lourenço. Não se usava a expressão “ir à praia”, mas sim “ir ao banho de mar”, pois a permanência das pessoas não era valorizada. Os banhos de mar deveriam ser de manhã cedo ou no final da tarde, em horário determinado por lei: das 5h às 8h e das 17h às 19h, de dezembro a março; das 6h às 9h e das 16h às 18h, de abril a novembro. Não se tomava sol: o padrão de beleza elegante era pele alva, assegurada por cosméticos, chapéus, sombrinhas, guarda-sóis e vestuário. Aos poucos, entretanto, a prática de esportes, principalmente natação, contribuía para a diminuição do tamanho das roupas de banho. Entre as banhistas cariocas apareciam maillots ousados, que deixavam ombros e joelhos de fora.

Duas formas de aproveitar a praia se distinguiam, e os estilos do rei e da rainha eram bons exemplos. Elizabeth banhou-se com menos freqüência e sempre mais tarde que o rei. Entrava no mar acompanhada de um cavalheiro no qual se amparava, segurando-o pela mão. Seus banhos não duravam mais de quinze minutos. Já os banhos do rei eram demorados exercícios de natação. Alberto furava as ondas, dava braçadas vigorosas, nadava centenas de metros e de vez em quando ultrapassava os limites demarcados pelo serviço de salvamento. Certa vez, quando se afastou da costa, foi seguido por duas jovens nadadoras copacabanenses. Ao adverti-las de que era perigoso irem tão longe, teve como resposta que nada temiam, pois eram conhecedoras da praia desde pequenas. E ainda foi desafiado para uma competição – da qual saiu vencedor, é claro. Alberto, além de rei-soldado, era um rei sportman. Representava, junto com essas banhistas, um modo esportivo de ir ao banho, baseado na prática da natação, que concorria com o antigo hábito, justificado no discurso médico.

O Brasil não se achava atrasado em relação aos modernos costumes balneários da Europa. As novas gerações aprendiam a nadar nas piscinas de escolas e clubes desportivos. Agremiações ligadas ao remo ensinavam e promoviam competições de natação. As nadadoras que acompanharam o rei eram a expressão dessa tendência. Mas o que não tinha se generalizado entre os cariocas era a idéia de que Copacabana representava então a melhor praia de banhos do Rio de Janeiro e um dos mais belos pontos turísticos do país. Não por acaso, o roteiro da visita não previa nenhum evento nesse lado da cidade.

A expectativa dos brasileiros diante da visita do rei Alberto era confirmar junto a uma autoridade mundial a certeza de que o Brasil era uma grande nação, que não devia ser confundida com outras “turbulentas repúblicas americanas”. De certa forma, era como se perguntassem ao visitante: “O que em nós é digno da civilização?” Alberto I, bem educado, responderia que gostou de tudo o que viu. Entretanto, mais do que discursos oficiais, os atos do rei falavam dos seus sentimentos. O que fazia ele espontaneamente sempre que a programação permitia escapar das formalidades? Não ficou dúvida sobre o que o país tinha de melhor na opinião do rei: os banhos de mar em Copacabana.

Paulo Francisco Donadio Baptista é historiador e autor da dissertação de mestrado “Rumo à praia – Théo-Filho, Beira-Mar e a vida balneária no Rio de Janeiro dos anos 1920 e 30” (UFRJ, 2007).

Saiba Mais – Bibliografia:

CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra – moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.
Copacabana 1892-1992 – subsídios para a sua história. Rio de Janeiro: Comissão Organizadora das Comemorações do I Centenário do Bairro de Copacabana, 1992.
FAGUNDES, Luciana Pessanha. Uma República em festa: a visita dos reis da Bélgica ao Brasil (1920). Dissertação de mestrado, UFRJ, 2007.
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