AS PEDRAS PORTUGUESAS

ERA UMA PEDRA PORTUGUESA COM CERTEZA…E COM CERTEZA, ERA UMA PEDRA PORTUGUESA…

A Vereadora Cristiane Brasil, autora da Lei Municipal 4.658, que diz em acabar com as tradicionais pedras portuguesas das calçadas da Cidade do Rio de Janeiro, com exceção daquelas localizadas na orla marítima ou em local turístico, em que considero uma sucessão de equívocos e que, infelizmente, trará o irreversível prejuízo de destruir uma parte de nossa história e a identidade do meio ambiente local.

Discordo dessa Lei por achar que as cidades são presenças vivas e tem personalidade própria. Infelizmente por desconhecimento e falta de oportunidade de discutir problemas e soluções que dizem respeito a valores urbanísticos, a população acaba acatando as soluções e o discurso imposto por quem  governa e de quem  legisla sem se dar conta que nessas obras se refletem posturas sem um senso de responsabilidade com as futuras gerações usuárias da cidade e dessa forma apaga fatos urbanos e históricos como se fossem obras do acaso.

Projeto Burle Max

As nossas calçadas de pedra portuguesas com os seus desenhos na maior parte das vezes barrocos, são uma expressão natural de nossa carioquice. São ícones fortes em que muitos de seus desenhos são tombados, que devem ser reforçados, cultivados e aperfeiçoados.  Se por qualquer razão, seja sua colocação ou má conservação, as calçadas muitas vezes esburacadas e ameaçadoras, ainda não vejo nenhuma justificativa para drasticamente eliminá-las. Se o problema é a manutenção, então que se faça a devida manutenção nas pedras. Colocar cimento de farinha ou concreto é de mau gosto terrível. Nós vivemos dizendo o quanto os países lá fora possuem belas urbanizações e conservações de seus lugares históricos. O cartão postal da cidade, está abandonado, sujo e deteriorado.. Perdeu-se o referencial. Sem as pedras na calçada, vai-se a memória – e em todos os sentidos. A tendência  agora é cimentar, concretar, impermeabilzar para alimentar a indústria de obras e de cimentação.

O primeiro questionamento que cabe fazer é em relação ao quesito prioridade. Será que é justo, em uma cidade tão cheia de constrastes, com tantas áreas marcadas pela exclusão social, serviços básicos precários e absoluta inexistência de infra-estrutura, concentrar recursos muito alto em um espaço que tem condições urbanas plenamente satisfatórias?

O segundo questionamento é: Por que retirar o pavimento de pedras portuguesas do calçadão não só do bairro de Copacabana, mas de toda a Cidade do Rio de Janeiro? Que me desculpe os idosos e os cadeirantes. Mas, isso não justifica essa intervenção.

O terceiro questionamento é: Por que não investir na formação de calceteiros competentes que, além de colocá-las corretamente (como acontece em Lisboa, Paris, Sevilha, Veneza, Nova York, Londres, Milão, Grécia), façam a conservação das calçadas de forma o que é de direito e não teremos problemas, mas orgulho dos nossos artistas que nos oferecerá  a alegria de conviver cotidianamente e harmoniosamente com as suas obras de arte.

Graças a sua importância política em todos os sentidos da história brasileira, possui na urbanização de seus

O abstracionismo

passeios públicos esse  revestimento como herança claramente lusitana. O pavimento de pedras portuguesas já está incorporado à paisagem do bairro. Adquiriu o caráter e status de patrimônio da Cidade. Deve ser preservado como parte de sua história urbanística, assim como devem ser preservados todos os bens culturais que representam a identidade de um povo e de um lugar. A ideia da preservação da memória, cultivada em todas as civilizações avançadas, está sendo violentada de toda forma sem o menor respeito ao patrimônio cultural. Quanto ao argumento da acessibilidade em que se fala muito, a responsabilidade afirmativa, no intuito da divulgação de “melhoria” pois a grande obra é cuidar das pessoas. Décadas e décadas, várias gerações conviveram pacificamente com elas sem que alguém as reclamassem.

Por fim, há que se questionar, o desperdício do erário público. Não faz sentido, em uma Cidade com tantas carências, desfazer, para depois refazer, o que já está feito A tranformação do espaço ocorre, como é de hábito, sem usar critérios que realmente eleve sua história, sendo dessa maneira apenas uma obra de infra-estrutura que tem sua pertinência, no entanto,  poderia ser mais do que isso. Eliminar essa imagem deficitária, seria desvencilhar dos velhos processos pequenos de agir no ambiente urbano, atos meramente eleitoreiros e ausentes de um escopo técnico.

A CHEGADA AO BRASIL

No Brasil, a escolha de Pereira Passos para Prefeito do Rio de Janeiro no albor do Século XX veio abrir um novo ciclo de desenvolvimento urbano para a cidade. Já era um homem septuagenário, havia estudado em Paris, onde bebeu da experiência revolucionária que Haussmann empreendera na cidade, após a derrota da Comuna, rasgando avenidas majestosas e dando à capital francesa a feição que guarda ainda hoje.

Conhecido como o “bota abaixo”, Pereira Passos arrasou com o morro do Castelo, pondo por terra cerca de 600 casas e rasgando a fórceps a chamada Avenida Central, em 1905, que seria rebatizada de Avenida Rio Branco, dois dias depois da morte do Barão, em 1912.  Para calçar a nova Avenida, fez vir de Portugal um grupo de calceteiros portugueses e, também, as pedras portuguesas (calcita branca e basalto negro). A  quantidade era enorme e, além de calçar toda a Avenida, com desenhos variados, conforme o local onde era aplicado, as pedras ainda foram calçar, em 1906, a Avenida Atlântica, construída também por sua iniciativa, viabilizando os bairros de Copacabana e do Leme através da abertura do túnel do Leme no início daquele ano.  As importações de pedras portuguesas efetuadas por Pereira Passos nunca mais se repetiram. Logo foram identificadas enormes jazidas próximas ao Rio de Janeiro, mas a denominação das pedras ficou. Hoje, suas extrações são variadas e espalhadas por todo o país, mas é de se destacar o Paraná como um dos maiores fornecedores.

Calçadão e as palmeiras

Em Copacabana, o desenho das ondas, imitando o mar, ficou para sempre com a cara do bairro, tornando-se um logotipo internacional. O desenho foi trazido pelos calceteiros portugueses, mas não tinha então a volúpia curvilínea que se nota hoje. As curvas das pedras de Copacabana só ganhariam os contornos mais delineados que têm hoje a partir de 1970, com o aumento da faixa de areia e o alargamento das pistas da orla.  O paisagista, artista plástico e mosaicista Roberto Burle Marx foi chamado a refazer o calçamento de toda a extensão da Avenida e teve o bom gosto de manter o desenho original, apenas acentuando as curvas numa forma ainda mais sensual que o projeto de 1906. Burle Marx inovou no calçamento interno, fazendo uso de pedras portuguesas de três cores – branco, preto e vermelho – com as quais desenhou no chão aquelas composições plásticas características de sua telas, com inspiração acentuada nos padrões cromáticos indígenas. O paisagista pode ser considerado como um grande mosaicista contemporâneo. Além de calçadas – e que calçadas! – realizou painéis artísticos em pastilhas vítreas, inclusive na Itália, berço esplêndido da arte musiva de nosso tempo.

Fontes: “Olhar o chão”, Editora Casa da Moeda, Lisboa ( Ana Cabrera, Marília Nunes e Henrque Dias), 1990
“Mesmo por baixo dos meus pés (uma viagem pela Calçada Portuguesa)”, de Ernesto Matos, Edição de autor, 1999
Burle Marx: O Brasil nas calçadas de Copacabana porEdgard Mário Ruiz

2 Respostas para “AS PEDRAS PORTUGUESAS

  1. Não tendo as pedras portuguesas haverá rojão, pau e bomba como compensação.

  2. Roberto Haquim

    Ao que tudo indica, a remoção dessas pedras é mais uma questão de segurança, haja vista que durante as recentes manifestações, se tornaram verdadeiras armas ao serem lançadas. É muito fácil abaixar-se e literalmente “se armar”.
    Acho que é isso …

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